sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

O passeio de Santo António de Augusto Gil declamado por João Bilha


O passeio de Santo António

Saíra Santo António do convento,
A dar o seu passeio costumado
E a decorar, num tom rezado e lento,
Um cândido sermão sobre o pecado.

Andando, andando sempre, repetia
O divino sermão piedoso e brando,
E nem notou que a tarde esmorecia,
Que vinha a noite plácida baixando…

E andando, andando, viu-se num outeiro,
Com árvores e casas espalhadas,
Que ficava distante do mosteiro
Uma légua das fartas, das puxadas.

Surpreendido por se ver tão longe,
E fraco por haver andado tanto,
Sentou-se a descansar o bom do monge,
Com a resignação de quem é santo…

O luar, um luar claríssimo nasceu.
Num raio dessa linda claridade,
O Menino Jesus baixou do céu,
Pôs-se a brincar com o capuz do frade.

Perto, uma bica de água murmurante
Juntava o seu murmúrio ao dos pinhais.
Os rouxinóis ouviam-se distante.
O luar, mais alto, iluminava mais.

De braço dado, para a fonte, vinha
Um par de noivos todo satisfeito.
Ela trazia ao ombro a cantarinha,
Ele trazia… o coração no peito.

Sem suspeitarem de que alguém os visse,
Trocaram beijos ao luar tranquilo.
O Menino, porém, ouviu e disse:
– Ó Frei António, o que foi aquilo?…

O Santo, erguendo a manga de burel
Para tapar o noivo e a namorada,
Mentiu numa voz doce como o mel:
– Não sei o que fosse. Eu cá não ouvi nada…

Uma risada límpida, sonora,
Vibrou em notas de oiro no caminho.
– Ouviste, Frei António? Ouviste agora?
– Ouvi, Senhor, ouvi. É um passarinho.

– Tu não estás com a cabeça boa…
Um passarinho a cantar assim!…
E o pobre Santo António de Lisboa
Calou-se embaraçado, mas por fim,

Corado como as vestes dos cardeais,
Achou esta saída redentora:
– Se o Menino Jesus pergunta mais,
…Queixo-me à sua mãe, Nossa Senhora!

Voltando-lhe a carinha contra a luz
E contra aquele amor sem casamento,
Pegou-lhe ao colo e acrescentou:
– Jesus, são horas… E abalaram pró convento.

Augusto Gil in Luar de Janeiro

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Um poema a propósito do 20º aniversário da Biblioteca

Poema lido pela autora por ocasião do 
20º aniversário da Biblioteca Municipal de Arganil, 
no encontro cultural intergeracional 
realizado no dia 7 de dezembro de 2016.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Recordando Miguel Torga

ADEUS

É um adeus...
Não vale a pena sofismar a hora!
É tarde nos meus olhos e nos teus...
Agora,
O remédio é partir discretamente,
Sem palavras,
Sem lágrimas,
Sem gestos.
De que servem lamentos e protestos
Contra o destino?
Cego assassino
A que nenhum poder
Limita a crueldade,
Só o pode vencer a humanidade
Da nossa lucidez desencantada.
Antes da iniquidade
Consumada,
Um poema de líquido pudor,
Um sorriso de amor,
E mais nada.

Miguel Torga in Diário XIII

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Rei

A palavra rei sugere, de imediato, autoridade, riqueza, domínio, palácios, contos infantis e nomes do passado e do presente que fazem parte da história da maioria dos países do mundo.

Uns ficaram na memória como déspotas, outros como justiceiros, guerreiros, magnânimos ou empreendedores. E existiram os idiotas cuja cabeça apenas serviu para ostentar a coroa.

Em criança, para além dos contos habituais, em minha casa, lia-se, com alguma frequência, a história do Rei Salomão, como exemplo de grande sabedoria e justiça.

Porém, os reis que fazem parte dos primeiros registos da minha memória são os três magos que os meus irmãos mais velhos colocavam no presépio.

De início estavam junto a um castelo. Depois alguém os deslocava, uns centímetros por dia, sobre um caminho feito de serradura, a contrastar com o verde do musgo. 

Só no dia de reis apareciam à entrada da cabana, habitada pela Sagrada Família, o burro e a vaca.

Ouvi variadas histórias sobre eles e imaginei muito para além do que me contavam.

Os meus sobrinhos quase todos se recordam das fantasias que fui criando sobre os três reis do presépio.

Na verdade, tinha tanto direito a inventar como todos os que, ao longo dos anos, urdiram os seus mitos acerca destas três personagens.

Como é sabido, houve muitas pessoas a escrever sobre o nascimento e a vida de Jesus Cristo.

Porém, apenas quatro evangelistas: Mateus, João, Marcos e Lucas foram considerados os mais autênticos e, por essa razão, de certo modo, oficializados.

Mateus escreveu os evangelhos noventa anos após a morte de Cristo. Baseou-se na informação oral. 

Quanto aos magos recolhe elementos nas profecias de Isaías, que viveu muitos anos antes de Cristo e anunciou grande parte do que iria acontecer.

Mateus é o único que escreve sobre o nascimento e a infância de Jesus. Os restantes ocupam-se, apenas, da vida adulta.

Mateus, no cap. 2 – Adoração dos Magos refere o seguinte: Tendo Jesus nascido em Belém da Judeia, no tempo do Rei Herodes, chegaram a Jerusalém uns magos vindos do oriente.

Onde está o Rei dos Judeus que acaba de nascer? perguntavam. Vimos a sua estrela no oriente e viemos adorá-lo.

Resumindo o texto bíblico: o Rei Herodes, perturbado com o nascimento de outro rei, pediu-lhes que partissem, de imediato, e o informassem, com toda a brevidade, do local onde se encontrava esse menino.

Os magos, entretanto, seguindo a estrela, chegaram a Jesus.

Foram, porém, avisados, em sonhos, para se afastarem do Rei Herodes e regressarem à sua terra por outro caminho.

Esta é a única informação escrita que chegou até nós.

Mateus fala em magos vindos do oriente, não reis.

Os estudiosos bíblicos presumem que seriam astrónomos. Daí a associação a um astro especial, que identificaram como um sinal do nascimento do messias, prometido e anunciado pelos profetas.

Há quem acredite que a estrela seria o cometa Halley que, segundo os astrónomos, poderá ter sido visível nessa época. 

Muito do que hoje aceitamos como verdade são invenções adaptadas a cada cultura.

O evangelista também não menciona o número de magos. O facto de aparecerem como sendo três: um branco, um preto e um amarelo, significa que a salvação veio para todos.

Epifania, ou seja a festa da igreja católica consagrada à comemoração da adoração dos reis magos a Jesus, significa manifestação. Deus manifestou-se a todos os povos.

Os nomes que lhe foram atribuídos: Belchior, Baltazar e Gaspar ainda não encontraram uma explicação plausível por parte dos estudiosos.

Havia a ideia de que a ciência e a sabedoria provinham da Ásia.

A primeira grande civilização foi a da Mesopotâmia. Israel terá sido fortemente influenciado por essa cultura.

Portanto, os magos, considerados sábios, viriam do oriente.

Quanto aos presentes oferecidos ao recém-nascido, encontrou-se um significado aceitável: o ouro símbolo do Rei, material utilizado na coroa; o incenso sinal do culto a Deus, ainda hoje se queima nas igrejas; a mirra representa o homem. Na antiguidade colocava-se esta substância nos cadáveres.

Magos, reis ou reis magos pouco importa. A verdade é que conquistaram o direito a entrar em muitas das nossas casas e fazem parte da grande festa do Natal. 

9 de janeiro de 2017 

Maria Leonarda Tavares

Nota: Texto lido pela autora no serão dos "Amigos de Ler" no dia 9 de Janeiro de 2017

“Amigos de Ler” é um clube de leitores livres e apaixonados pelas suas leituras. Reunimo-nos na segunda segunda-feira do mês, às 21:00 horas, na Biblioteca Municipal de Arganil | Miguel Torga, com os mais variados pretextos – uma ideia, um autor, uma cor, uma página... Memórias dos textos que temos lido. Com chá, licores e muitos livros em cima da nossa mesa.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Ler

ilustração de Sofía Zapata Ochoa

"Para quem gosta de ler nunca haverá demasiado tempo. Mais do que um prazer, ler pode ser uma actividade incrivelmente regeneradora e, em certos casos, terapêutica. Na verdade, a palavra escrita tem o poder de transformar.
Um livro é capaz de nos transportar para mundos desconhecidos e de nos fazer viajar no espaço e no tempo. Ler inspira e dá mais sentido à vida.
Não há maneiras boas ou más de ler nem existem lugares melhores ou piores para ler um bom livro.
Qualquer hora, qualquer lugar servem para ficar a ler um livro que nos entusiasma, nos envolve e absorve de tal maneira que nos sentimos viver uma vida diferente.
Numa época em que tudo é tão rápido e tão efémero, em que as relações são tão precárias e os amigos tão vulneráveis, é bom saber que podemos sempre contar com um livro para nos fazer companhia. E para nos tornar infinitamente mais ricos."

Inês Menezes in revista XIS nº 227 (11.10.2013)

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Novidade na Biblioteca: o último adeus de Cynthia Hand


Cynthia Hand oferece-nos uma lindíssima e comovente história sobre amor, perda, culpa e superação. 

Como superar a ausência e a culpa se não dissermos o último adeus?

A morte está à nossa volta.
Nós não prestamos atenção.
Até que somos obrigados a fazê-lo.

A última vez que Lex se sentiu feliz foi antes. Quando ela tinha uma família coesa. Um namorado que amava. Amigos que não temiam que ela se passasse a qualquer momento. Agora ela é apenas a rapariga cujo irmão se suicidou. E Lex sente que é assim que vai ser vista para sempre. 

Ela tenta seguir com a sua vida, mas há um segredo que a impede, algo que ela nunca disse a ninguém: o seu irmão, Tyler, deixou-lhe uma mensagem na noite em que se suicidou. E esta ideia persegue-a como uma sombra. 

À medida que o tempo avança, Lex começa a descobrir que os fantasmas não têm de ser reais para nos impedirem de avançar.

Fonte: www.topseller.pt

Leia aqui as primeiras páginas do livro. Se gostou pode requisitar o livro na Rede de Bibliotecas do Concelho de Arganil

Leia, porque ler é um prazer!

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Muros


Quando falamos de muros, por via de regra, pensamos em muros físicos. Como me sinto atraída pelo belo e gosto de realçar o lado positivo do que me acontece ou rodeia, a palavra muro sugere-me, numa primeira análise, beleza.

Vejo-os cobertos de glicínias perfumadas, de buganvílias de cores fortes, de hera verde e musgo a revestirem pedras envelhecidas, de rosas miudinhas, de jasmim a exalar um aroma intenso e inesquecível, que me recorda sempre a Tunísia. E visualizo tantas outras trepadeiras coloridas e belas. 

Só depois penso nos muros encimados por arame farpado. Esses começam e acabam nas separações e muralhas que existem dentro de nós.

Ao longo da história tem havido sempre fanáticos, ditadores e extremistas que erguem muros gigantescos. Uma vergonha para a humanidade. Vêm de dentro para fora. Nascem no coração.

Contudo, é com muros que construímos as nossas casas, os abrigos que aconchegam. Todos os lugares habitados são estruturados a partir deles.

Porém, tanto servem para criar espaços acolhedores, como lugares caóticos, miseráveis, poluídos, indignos e inseguros.

Toda a nossa vida é feita de muros físicos e abstratos.

A própria natureza tem divisórias: as montanhas, as florestas, os rios, os mares, as escarpas e tantos outros.

Os muros são o suporte do património histórico, artístico e cultural.

Fazem parte da identidade comum de um lugar.

Podem ser elementos vivos, dinâmicos e participativos da relação das pessoas com o meio ambiente.

Eles fazem parte do mundo de símbolos e hábitos de cada grupo humano.

É bastante através dos muros, ou seja das construções, que avaliamos a qualidade de vida e o local onde determinado tipo de existência transcorre.

Existe uma grande relação entre os espaços urbanizados e o comportamento humano.

Hoje não se procura só a beleza dos muros que formam os lugares habitáveis, mas também o bem-estar das pessoas e a harmonia com o ambiente.

Porém, os muros mais perigosos são os que nos aprisionam dentro de nós próprios. Quase todos os erguemos. Maiores ou menores, consciente ou inconscientemente, quer queiramos ou não admiti-lo.

Eles desenvolvem-se, mais facilmente, nos corações vazios.

A maioria dos males da humanidade resulta da incapacidade de derrubar os muros do egoísmo e da intolerância.

Contudo, o facto de estarmos aqui reunidos, numa noite fria, quase em vésperas de Natal, significa, entre outras coisas, que temos capacidade de abertura aos outros, de criar laços de pertença a um grupo., através de reflexão e convivência saudável.

E porque é Natal, e não só, recordo que todos temos ao nosso alcance meios poderosos para derrubar muros: sorrir e abraçar.

12 de dezembro de 2016
Maria Leonarda Tavares